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Para CEO da Netflix, TV acaba em 2030

Por: Kiko Machado on quinta-feira, 4 de dezembro de 2014 | 16:37

Para Reed Hastings, CEO Netflix, a TV acaba em 2030. No Brasil também? Não é bem assim



É realmente muito tentador apregoar o fim de uma indústria baseado no desenvolvimento de tecnologias que oferecem um serviço melhor ou uma experiência mais significativa para o usuário. Ainda mais se você for o CEO de uma empresa quem vem impactando tanto o mercado de TV quanto cinematográfico. Foi o que afirmou Reed Hastings, o CEO da Netflix (Leia aqui). Para o executivo a TV acaba em 2030.

Se a continuidade da indústria televisiva dependesse apenas da questão tecnológica seria fácil concordar com Hastings, contudo é um equívoco e um perigo muito grande para as emissoras, traçar estratégias focadas na questão tecnológica. O futuro da TV não se dará pelo viés da tecnologia. Ele será definido pelo contexto econômico e político de cada país. A tecnologia será o gatilho que impulsionará a necessidade de se estruturar um novo modelo de negócios para a televisão aberta, inclusive no Brasil.

O discurso de Hastings, firma-se na possibilidade da escolha dos usuários em utilizar um serviço concorrente na entrega de conteúdo audiovisual. Fato que pouco tempo atrás não existia. Assim, para ele, basta dar tempo ao tempo e usuários irão optar por esta nova possibilidade. Talvez isto seria mesmo assim caso houvesse uma uniformidade de condições entre os diferentes públicos da cada país. Mas mesmo assim, ele se esquece que as regras do jogo são definidas no campo político. Basta uma lei, uma regulamentação ou a imposição de taxas para que a televisão aberta continue à frente de seus concorrentes. E no Brasil esta é uma opção bem plausível. Alás já aconteceu várias vezes.

As políticas de comunicação adotadas pelo governo brasileiro vem determinando a manutenção do modelo de negócios praticados na TV analógica, também na TV Digital e uma série de medidas foram impostas favorecendo a continuidade da supremacia da televisão no mercado publicitário.


  1. 20 de dezembro 2002, foi aprovada a lei 10.610 permitindo a participação de 30% do capital estrangeiro nas empresas de comunicação. Até esta data, a legislação brasileira proibia qualquer participação do capital estrangeiro em empresas de radiodifusão. 
  2. 13 de novembro 2005 – O Ministro Hélio Costa apresenta o padrão ISDB-T que favorece os radiodifusores brasileiros na utilização da mobilidade
  3. 06 de agosto de 2010 – Por 7X1 o STF julgou improcedente a Ação de Inconstitucionalidade (ADI) 3944 ajuizada pelo PSOL principalmente contra as regras para a multiprogramação mantendo as mesmas ofertas de espaço publicitário nos canais existentes
  4. 04 de Junho de 2012 foi aprovada a Lei 12.485/2011 que passou a vigorar a partir de 02 de setembro/12 e estabelece cotas de produção nacional nos canais pagos e, principalmente, define regras entre distribuição e produção de conteúdo. O que impediu que as empresas de telefonia produzissem conteúdo.
  5. 23 de abril de 2014 Presidenta Dilma sancionou o “Marco Civil da Internet no Brasil” – que estabelece, entre outros, a Neutralidade da Rede, que tem como questão principal, a proibição para as operadoras de internet cobrar preços diferenciados na utilização da banda de internet.
Fazendo essa simples linha histórica, pode-se perceber que as políticas de comunicação estão sendo traçadas para que se perpetue o atual modelo de negócios. Caso empresas como a Netflix ou Google ofereçam realmente um risco à manutenção deste modelo, não será surpresa nenhuma que o congresso novamente tome partido das emissoras, até porque, muito políticos são proprietários de emissoras de televisão no Brasil. 

A TV aberta no Brasil possuí um momento privilegiado em relação ao mercado internacional. Há um tempo ainda considerável (maior do que 16 anos, como afirma Hastings) para que sejam tomadas as decisões necessárias capazes de atenuar os impactos que as tecnologias da informação sejam um risco sério para a indústria televisa brasileira. Pelo menos enquanto o lobby das operadoras de Telecom e empresas de tecnologia não suplantarem o poder político da radiodifusão brasileira. 

No campo econômico, a situação não é muito diferente. Como afirma Arlindo Machado, "a televisão é e será aquilo que quisermos que ela seja". A televisão é reflexo direto da sociedade. O modelo de negócios atual foi estabelecido para uma uma sociedade industrial que vem sendo transformado pela sociedade da informação e as novas condições de emprego e divisão do trabalho. É muito mais importante induzir como a será a sociedade brasileira no futuro do que nossa televisão, pois a TV será uma consequência da estrutura econômica do Brasil e não o contrário.  
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